«Regresso ao tempo dos Flinstones»

Num comentário subordinado ao título em epígrafe e inserido em rodapé do texto em que Oscar Mascarenhas respondia ao seu editorial, José Manuel Fernandes voltava ao tema dos chamados estágios nas redacções, reconhecendo que a prática do Público em tal domínio não é a que se verifica na generalidade das empresas de comunicação social.

Ao ler a prosa de Oscar Mascarenhas, senti-me de volta ao tempo dos Flintstones (o tempo dos Flintstones é o tempo dos homens das cavernas e da pedra lascada, os trogloditas, mas é mais simpático chamar-lhe «tempo dos Flintstones» do que correr o risco de ser acusado de ter chamado troglodita ao presidente do conselho deontológico do Sindicato dos Jornalistas). O mundo do Oscar Mascarenhas é simples e desenha-se a preto e branco: tem patrões e escravos; sindicalistas e amarelos. Nele, antes ser corporativo que ser traidor: O meu mundo não é esse, há muitos anos. Prezo a liberdade e, porque a prezo acima de tudo, não me inibo de criticar mesmo vacas sagradas como o Sindicato dos Jornalistas.

Como o Oscar bem sabe, ou devia saber, os cursos de jornalismo prevêem, e muito bem, um estágio final, regra geral com a duração de três meses, que deve ser feito num órgão de comunicação social. As escolas de jornalismo realizam para isso protocolos com esses órgãos, para estes receberem os estudantes e os ensinarem, os introduzirem no mundo real da profissão. A forma como esses órgãos os recebem varia de empresa para empresa e depende muito de serem um jornal, uma revista, uma estação de rádio ou a redacção de uma televisão. No Público sabemos que muitos desses «estagiários», como impropriamente Ihes chamamos, dão às vezes mais trabalho do que libertam, mas também sabemos que outras vezes dão preciosas ajudas às secções onde se integram, onde são tratados como jornalistas de parte inteira, podendo publicar os artigos que fazem, desde que estejam bem feitos, cumpram as regras da profissão e deste jornal e os editores os considerem adequados.

O nosso princípio, sagrado, é que, terminado esse tempo em que os estudantes completam os seus cursos, se queremos que eles continuem a trabalhar connosco, convidamo-Ios a integrar a nossa equipa e pagamos-lhes. Fazemos isso desde 1990, mas sabemos que infelizmente não é essa a prática de outras empresas, onde por vezes continuam a trabalhar sem receber ou recebendo salários miseráveis. É com essas situações que o sindicato se devia preocupar, não com aqueles que ajudam jovens candidatos à profissão, na fase final dos seus cursos, a aprender e a evoluir. De resto, os «escravos», pelos vistos, estão-nos agradecidos por assim procedermos.

Claro que isto são argumentos que não sei se o Oscar quer ouvir de quem ele acha que é apenas o «representante do patrão». Claro que isso sucede porque ele vive no tal tempo dos Flintstones, não conhece a história do Público e não entende que um director só exerce bem o seu papel se tiver; em simultâneo, a confiança da sua equipa, isto é, dos seus jornalistas, e a confiança do accionista do seu jornal. Como eu não vivo no tempo dos Flintstones, também há muito que deixei as cavernas do pensamento obtuso e engavetado, E sobretudo não discuto «slogans», mesmo quando estes querem travestir-se de argumentos.

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