Defesa e elogio do trabalho escravo

Perante o editorial de José Manuel Fernandes intitulado «O Sindicato corporativo», o presidente do Conselho Deontológico do SJ, Oscar Mascarenhas, enviou ao público uma réplica, que aquele jornal inseriu na edição e 30 de Março de 2001, com o título «Sobre o trabalho escravo e quem o elogia» .

Sou sindicalista com muita honra – e sem qualquer proveito. Não me sinto corporativo e nem o é o meu Sindicato dos Jornalistas. Pelo menos, nunca foi política do SJ restringir o acesso à profissão dos que a ela se apresentam, com o argumento, por exemplo, de que há desempregados que deveriam ter prioridade. Para os jovens que se candidatam ao jornalismo, bem basta terem de afrontar o patrão como seu adversário – dispensam bem ter os «os mais velhos» também como seus opositores. Curiosamente, houve redacções que, por respeitáveis razões de sensibilidade e companheirismo, vincularam as suas administrações a uma política de admissões que contemplasse prioritariamente os desempregados. Mas nem essas redacções considero que tenham sido corporativas.

E que fossem? E que o sindicato fosse corporativo? E que os sindicalistas fossem corporativos? Estariam apenas a pecar por excesso, por quererem defender de mais os seus. Abandoná-los seria bem pior: chama-se traição – ou «amarelismo». O corporativismo corrige-se com debate e bom senso: à traição e ao amarelismo não há nada a fazer; são já distorções de caracter.

Num infelicíssimo editorial contra o Sindicato dos Jornalistas, José Manuel Fernandes critica uma recente nota do SJ sobre os abusos que se têm verificado na utilização de «estágios curriculares» nas redacções. Nada a tive a ver com a elaboração do comunicado – já que a minha área sindical é a da deontologia e não a dos direitos dos jornalistas, – a tutela é a da Direcção – mas estou em absoluto solidário com ela, quando mais não fosse em nome da decência de procedimentos.

O que se passa – e que JMF defende e elogia – é, pura e simplesmente, uma indecência. Nada tem a ver com o acesso à profissão: tem a ver com esta coisa normal e primária que se chama pagar por trabalho prestado. Quando um trabalho é prestado e não é pago, ou estamos perante uma dádiva – ou é trabalho escravo. Como os estudantes de jornalismo não estão em condições de dar – e as empresas de comunicação deveriam ter a honradez de não receber dádivas destas, só podemos estar em presença de trabalho escravo. Que JMF defende e elogia. Porque ele só acha mal o trabalho não pago «por períodos que nada têm a ver com os estágios curriculares». Porque se for dentro do período de estágio curricular; qual pagar, qual nada!?

E o que é que JMF acha que é lindo fazer-se como estágio curricular? «Contactar fontes, obter notícias, cumprir horas de fecho, respeitar o tamanho das peças, integrar-se no espírito e da cultura do órgão de informação.» Sursum corda! Corações ao alto, sim – mas nada de falarem estômagos. Isto é: o jovem contacta fontes, obtém notícias, cumpre horários, ajusta-se às peças – que mais é que quer? Pagamento? Ai que o menino está a ficar corporativo! Onde é que já se viu?

Quando me lembro que o Times nunca se esquecia de enviar uma libra, como pagamento simbólico, até aos lordes de quem publicassem cartas…

Por fim: JMF deveria ter pudor em falar em termos depreciativos sobre o que ele acha ser a falta de representatividade do Sindicato dos Jornalistas. Primeiro, porque é falso: o SJ, para desconsolo de JMF, ainda é um dos mais representativos – se não o mais representativo – dos sindicatos de jornalistas da Europa. E, depois, porque JMF é director de um jornal, ou seja, é o representante do patrão na redacção. Ao pretender fazer pouco da organização dos jornalistas, JMF fica deploravelmente parecido com aquele cartola das cortiças que, de tanto negociar e lucrar com estalinistas – chegou à conclusão de que os sindicatos só atrapalham.

Disse, no principio, que sou sindicalista sem proveito. Errei: ganho pelo menos uma coisa. Como sindicalista, nunca poderei ficar tão comprometido com o patrão que seja até capaz de defender o trabalho escravo!

Texto reproduzido com a autorização do autor