Parecer do CD sobre publicação de press releases disfarçados de notícias

O Conselho Deontológico (CD) do Sindicato dos Jornalistas, em resposta a uma solicitação recebida, emitiu hoje um parecer sobre a publicação de press releases, na íntegra e sem identificação da natureza do texto e da sua origem, como se fossem notícias.

No texto, que a seguir se publica na íntegra, o CD considera que tal prática “representa uma clara desresponsabilização do papel dos jornalistas na mediação entre as fontes de informação e o público”, e que o profissional que a ela recorre “está a ludibriar o público sobre a natureza e a qualidade da informação que recebe, colocando-se numa situação muito pouco dignificante”.

Conselho Deontológico

Parecer 18/P/2009

Publicação de press releases disfarçados de notícias

Preâmbulo:

João Gante é um cidadão que se mostrou preocupado com o facto de ter visto reproduzido um press release de um partido político num jornal regional. Embora considerando inconsequente tal publicação – escusando-se, por isso, a identificá-la –, aquele leitor pretende saber como analisa o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas tal situação, se esse procedimento vai contra a ética profissional e se não viola o princípio da distinção entre notícias e opiniões.

Análise:

O Conselho Deontológico tem por costume pronunciar-se sobre casos concretos e devidamente identificados. No entanto, a questão levantada por João Gante parece resultar de uma preocupação geral de um cidadão atento a uma prática que, embora não sendo corrente, é mais comum do que seria de desejável.

O press realease é, normalmente, um texto elaborado por relações públicas e agências de comunicação que, muitas vezes, obedece às técnicas formais de redacção de notícias. Em alguns casos, são redigidos de tal forma que se pode questionar se jornalistas o fariam melhor. A este facto não será alheio o apuramento das técnicas das agências de comunicação que, por vezes, integram profissionais com experiência anterior no jornalismo.

Perante o condicionalismo do tempo e o trabalho de refazer um texto que está bem escrito, existe, por vezes, a tentação de publicar o presse release na íntegra ou com alterações quase imperceptíveis, mas que, como agravante, contribuem para que ele se assemelhe ainda mais àquilo que não é: uma notícia. Esta tentação será, à partida, maior em pequenas redacções, no entanto, não é um exclusivo delas.

No caso referido por João Gante, a únicas diferenças encontrada entre o press release e o texto publicado no jornal limitam-se às palavras «justificam» e «adianta a nova direcção».

Em rigor estas alterações de tão imperceptíveis que são apenas visam introduzir uma segunda voz (a da redacção) tentando dar a aparência de um tratamento jornalístico que, de facto, não existiu.

Independentemente das razões que se possam invocar, é preciso salientar que este tipo de procedimento não contém nenhum critério jornalístico válido, para além de poder ser entendido como uma maneira de defraudar o leitor, fazendo passar por jornalístico um texto que apenas o é na forma.

Um dos papéis fundamentais do jornalista é o de ser um mediador entre as fontes de informação e o público. Ao recusar essa função, o jornalista está a transformar-se em simples provedor de conteúdos, desvalorizando o seu papel central de agente especializado na selecção e tratamento de informação, de acordo com os critérios jornalísticos e a linha editorial do respectivo jornal.

Estaremos perante um caso de confusão entre factos e opiniões, como pergunta João Gante? Na ausência dos textos em causa, não é possível responder-lhe. Mas percebe-se que um leitor coloque assim a questão, uma vez que estas situações significam que as redacções se desresponsabilizaram de fazer um efectivo tratamento da informação, sujeitando-se a todo o tipo de manipulação por parte de terceiros.

A este propósito, deve recordar-se que o jornalismo rege-se pelo princípio geral da identificação das fontes, trate-se de informações provenientes das agências de notícias ou de uma qualquer outra instituição ou agência de comunicação.

O Conselho Deontológico admite que casos excepcionais podem levar a redacção a decidir publicar na íntegra um press release. Porém, esse facto deve ser devidamente identificado em nota da redacção ou por qualquer outro meio, sob pena de ser estar a dar ao leitor gato por lebre.

Conclusão:

Em resposta à questão colocada por João Gante, o Conselho Deontológico concluiu que, embora nem sempre se possa dizer que estamos perante uma confusão entre factos e opiniões, a publicação de press releases, na íntegra e sem identificação da natureza do texto e da sua origem, representa uma clara desresponsabilização do papel dos jornalistas na mediação entre as fontes de informação e o público. Nestes casos, o jornalista está a ludibriar o público sobre a natureza e a qualidade da informação que recebe, colocando-se numa situação muito pouco dignificante.

Lisboa, 24 de Setembro de 2009

O relator,

Carlos Camponez

Pelo Conselho Deontológico

do Sindicato dos Jornalistas

J. Carlos Camponez