«Dona Wanda», uma colaboradora inesquecível

Jornalista que tenha entrado na profissão até aos anos 90 saberá inevitavelmente o que significa o nome de «Dona Wanda», a figurinha amável e delicada que durante meio século serviu a classe dos jornalistas sem mostrar preferência por nenhum, pois de todos cuidava como se fossem seus filhos. Aqui se presta homenagem a essa grande senhora, que exerceu exemplarmente o cargo de chefe dos Serviços do SJ.

Figura tutelar dos jornalistas, ao serviço dos quais esteve perto de 50 anos como chefe dos Serviços do SJ, D. Wanda Xavier de Basto, ou mais simplesmente a «Dona Wanda», conseguiu a rara proeza de, entre os ventos e marés que, ao longo dos tempos, expuseram a classe a situações de confronto, jamais ter sido parte das lutas que se travaram, a todos os intervenientes tratando por igual. Daí que, por diversas vezes, tivesse sido alvo de homenagens que juntaram pessoas diversas (e até adversas) entre si, mas que se encontravam solidárias no respeito e amizade por esta grande senhora. Entre as homenagens de que «Dona Wanda» foi alvo sobressai a sua condecoração, em Janeiro de 1983, no decorrer do I Congresso dos Jornalistas Portugueses, com a comenda da Ordem da Benemerência, pelo Presidente da República, general Ramalho Eanes.

Mas certamente a recordação mais inesquecível terá sido a que, na altura da sua reforma, em 1992, juntou na Casa do Leão, ao Castelo de São Jorge, muitos dos jornalistas que com ela privaram, comparecendo como convidados vários dos antigos presidentes do Sindicato. Um deles, João Coito, escreveria a propósito, no semanário «O Diabo» de 18 de Fevereiro de 1992, uma crónica intitulada «Jornalistas e…jornalistas». Nessa crónica, em que João Coito faz observações polémicas sobre a classe e o SJ, avulta no entanto o seu talento de retratista, que traça com mestria o perfil de D. Wanda Basto no que ela tem de mais reconhecidamente consensual entre quantos com ela privaram.

Daí que, entre os textos saídos à estampa sobre a D. Wanda, o de João Coito se nos afigure o mais interessante para reproduzir neste espaço memorialístico, em homenagem à mais inesquecível servidora dos jornalistas.

Muito recentemente, em 26 de Janeiro de 2002, D. Wanda Basto perfez 80 anos de vida, circunstância que levou a Direcção do SJ a reunir-se com ela num almoço a que estiveram presentes, além de membros dos corpos gerentes, os actuais funcionários do SJ, a maioria dos quais ela recrutou, e um grupo restrito de convidados em representação de várias estruturas de jornalistas ou com estes relacionadas, designadamente a Caixa de Previdência, o Cenjor, a Casa da Imprensa, o Clube de Jornalistas, a Alta Autoridade para a Comunicação Social, a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista e o sócio mais antigo no activo.

Em certa medida, o encontro fez reviver o passado e deu ensejo a uma jornada de solidariedade que, com proporções mais modestas, assimilou o espírito que, anos antes, fez João Coito escrever a crónica que, com a sua prévia autorização, a seguir reproduzimos.

«JORNALISTAS E…JORNALISTAS»

Há jornalistas…e jornalistas. Venho de um tempo outro, em que o jornalista só o era verdadeiramente após longos anos de noviciado, em contacto com colegas mais antigos e experimentados, depois de percorrer, demoradamente, todas as escalas da actividade profissional. De nada valia então ao neófito ostentar títulos académicos, ou apresentar licenciaturas, ou exibir livros publicados. Ingressava na Redacção de qualquer jornal em igualdade de condições com os outros candidatos e tinha de desempenhar todos os mesteres, desde o mais humilde à crónica de viagem ou ao artigo de fundo… A tantos anos de distância, sou forçado a concluir que assistia inteira razão aos responsáveis. Basta viver e estar atento aos novos tempos para verificar quantos zoilos e marretas têm penetrado neste mundo da Comunicação Social sem a mais elementar preparação. É vê-los por aí, a pontificar em desvairadas tribunas, tão ousados como irresponsáveis, fazendo alarde de extravagantes opiniões, quase sempre em desavergonhados atentados ao senso comum, sem curar de saber se os seus juízos de valor vão causar danos injustos e irreparáveis, cheios de prosápia, incontinentes, vaidosos e alérgicos a qualquer espécie de solidariedade. Entram hoje para um jornal e já aparecem amanhã a assinar uma crítica social ou um artigo de opinião. São admitidos esta semana, através da credencial de serviços prestados ao partido, nos quadros da Televisão, e não tarda que apareçam na pantalha a documentar com exuberância os fracos conhecimentos da língua portuguesa, e os outros também… É um «fartar vilanagem» nos meandros da Comunicação Social, circunstância que explica, só por si, a razão do decréscimo de credibilidade e de vendas, que traz por aí, ocupadíssimos, alguns sociólogos de fresca data.

A esta altura do meu texto semanal, o leitor talvez se sinta intrigado com este arrozado. Há dias, numa daquelas noites de cerrado nevoeiro que ocultou Lisboa da vista das aeronaves e dos anjos, fui jantar ao Castelo de S. Jorge. Não foi fácil… Não abundam, nem são visíveis, os indicativos no dédalo de ruelas em seu redor. A neblina, espessa, adesiva e resistente, transformava os candeeiros em fogaréus medievos. Lá ao fundo, a cidade buliçosa e agigantada, parecia atabafada sob o imenso cobertor húmido, e nem um som vinha perturbar o silêncio e a melancolia das ameias do castelo, onde dois pares de namorados navegam, esquecidos, entre a palidez das luzes e o rendilhado da paisagem…

O que ali me levou foi um convite, gentil, da actual direcção do Sindicato dos Jornalistas, para participar num jantar de homenagem a D. Wanda Xavier de Basto, a «Dona Wanda» que várias gerações de jornalistas se habituaram a ver e a sentir como uma espécie de deusa tutelar dos seus direitos e deveres. As várias direcções sindicais passavam, no tempo chamado democrático e no outro, sucediam-se as figuras proeminentes que depressa caíam no limbo das coisas deste mundo, mas a «Dona Wanda» permanecia, feminina e inalterável, solícita e dedicada, fazendo sólidas amizades entre gregos e troianos. Pode ter, e deve ter, as suas convicções políticas ou preferências partidárias. Desafio, no entanto, qualquer dos católicos mais sacristas ou dos laicos mais iconoclastas, qualquer dos conservadores mais empedernidos ou dos mais fogozos revolucionários, que passaram pela direcção sindical, a vir a terreiro afirmar que a «Dona Wanda» era dos seus… Inútil e impensável… A «Dona Wanda» era, apenas e só, dos jornalistas. Conhece-os a todos. Sabe quanto vale cada um deles. Distingue-lhes a voz ao telefone mal articulam palavra. Sabe como se chama a mulher de cada um, quantos filhos tem, as doenças que sofreram, os hábitos do casal. É um computador antes de haver computadores, com a vantagem de ser humana, sensível, delicada. Nas suas orações – a «Dona Wanda» é uma católica praticante fervorosa – há sempre um lugar, distinto e afectuoso, para os jornalistas que ele acompanhou em vida e para muitos que ela viu nascer para a profissão e deixar o mundo. Não creio que haja em Portugal um sindicato que houvesse tido uma alma como esta. Nesse aspecto, ao menos, o Sindicato dos Jornalistas é um privilegiado…

Foi por isso que eu subi ao castelo e tomei lugar, na minha qualidade de antigo presidente do Sindicato, na mesa de honra do jantar de homenagem. Foi uma noite de agitação para a memória. Olhando em redor, naquela linda sala da cisterna, impondo-se aos fumos distantes de lusitanos, mouros e cruzados engolfinhados, eu distinguia, na noite húmida e melancólica, os rostos de muitos colegas meus, eminentes figuras de homens e de profissionais, que tudo fizeram para que esta nossa actividade fosse digna, nobre e compensadora. Estou a vê-los, durante anos, cumprindo as funções com um fervor quase monástico, esquecidos de si próprios e dos seus, servindo sempre, com um sorriso e com uma modéstia de levar aos altares, esta deusa aliciante e volúvel que se chama Informação. Manda-me a verdade dizer que os exemplos mais luminosos me vieram sempre dos profissionais empenhados na actividade sindical. Endividados, mal dormidos, mal pagos eram capazes de actos de generosidade extraordinária, sem um lamento, sem o menor desejo de agradecimento. Não refiro nomes porque o espaço é curto e não abro distinções. Como legenda de todos eles, acode-me à lembrança o nome de Belo Redondo, um apelido precioso e justo. Era belo pela gentileza e desinteresse dos seus sentimentos. Se lhe aparecia, à porta do jornal, um pobre a pedir-lhe a camisa, o Belo Redondo ficava sem a camisa, com o mesmo ar displicente com que fumava os cigarros sem parar… Era quase redondo no aspecto físico, como uma bola que rolava, sem cessar, entre as noites longas no edifício do «Diário de Notícias» e a empresa, no Rossio, onde passava largas horas do seu dia…

Naquela noite de nevoeiro cerrado, reconciliei-me, graças à «Dona Wanda» e ao despertar da memória, com o sindicato a que dei muito e que me tratou miseravelmente em dias que quero esquecer. Observei, feliz, a juventude e nobreza dos actuais dirigentes. E fiquei emocionado ao ver algumas das figuras mais irreverentes e temidas da moderna Comunicação Social, reunidas ali, docemente embevecidas, quase a ronronar à volta da «Dona Wanda» que, miraculosamente, se fez ainda mais pequenina naquela noite, para que todos a pudessem abraçar e guardar melhor… É evidente que este refinado prazer é inacessível aos «pontífices» que agora por aí há, e que jamais saberão o que foi o gosto de medir um granel e o que é a alegria de ser solidário e fraterno.