A Direção do Sindicato dos Jornalistas (SJ) foi surpreendida com o anúncio de um programa de rescisões voluntárias no grupo Notícias Ilimitadas (NI), empresa fundada há cerca de um ano e que há nove meses adquiriu ao Global Media Group (GMG) títulos como o “Jornal de Notícias”, “O Jogo”, a TSF e várias revistas.
É difícil entender como redações a lutar diariamente com falta de meios humanos e técnicos poderão acomodar a saída de mais um jornalista que seja. Estranhamos que empresas jornalísticas, perante a adversidade, tenham sempre como miragem de solução o corte das redações, fórmula comprovadamente errada, como se tem visto ao longo dos anos.
No anúncio da NI, não há qualquer menção a um plano de futuro ou orientação estratégica. Apenas um corte na força de trabalho em redações que há anos estão no limite e reclamam meios para melhor poder servir o interesse público. Em tempos de grandes desafios para o jornalismo e para a democracia, não é com menos jornalistas que se faz melhor jornalismo.
Este processo vem acompanhado de um corte de 50% nas colaborações externas para os órgãos da empresa. Uma medida incompreensível em redações que dependem muito de correspondentes, como no caso do JN, que dá amplitude nacional ao noticiário regional com dezenas de correspondentes em mais de meia centena de concelhos. Ou n’ “O Jogo”, cuja rede de colaboradores externos eleva o jornalismo além dos “três grandes” e do futebol, contribuindo para uma melhor representação do desporto e da sociedade.
Para estas redações, este é o terceiro processo de rescisões voluntárias aberto desde julho de 2022, quando ainda pertenciam à GMG, e que em 2023 se transformou numa tentativa (falhada, graças à luta dos trabalhadores) de abarcar até 200 pessoas num despedimento coletivo.
Este caso, mais um, vem demonstrar, a fragilidade do ecossistema mediático português, fortemente afetado pela migração da publicidade e dos leitores para as redes sociais. O anterior Governo PSD/CDS apresentou um Plano de Ação para a Comunicação Social que o SJ considera não ter tido a força ou amplitude necessárias para resolver os problemas concretos da classe, o que partilhámos repetidamente com representantes do poder executivo e legislativo. Resta saber se a nova encarnação deste governo vai manter este caminho e assistir ao desmoronar de um dos pilares da democracia.
