Rosalía, fotojornalistas não são substituíveis por fotografia promocional

A Direção do Sindicato dos Jornalistas acompanha com elevada preocupação os impedimentos crescentes ao trabalho de fotojornalistas, de que é novo exemplo o bloqueio imposto nos concertos de Rosalía em Lisboa: a artista catalã proibiu a entrada de fotojornalistas, distribuindo imagens captadas pelo próprio fotógrafo à comunicação social.  É claro que a sociedade perde quando a linguagem jornalística é substituída pela divulgação propagandística. O SJ saúda os vários órgãos que recusaram publicar as fotografias promocionais, nos seus artigos sobre o evento.

Infelizmente, esta recusa tem-se tornado rara nas publicações portuguesas, onde se banalizou a utilização sistemática de conteúdos e imagem produzidos por indivíduos sem carteira profissional de jornalista, substituindo o trabalho de profissionais devidamente habilitados, e abrangidos pelos mesmos direitos, deveres e exigências legais de outros profissionais da informação. O aumento do volume de artigos publicados online fez-se acompanhar de uma quebra no número de repórteres fotográficos e de imagem, levando a um recurso crescente a conteúdos distribuídos por assessorias de imprensa, gabinetes de comunicação, departamentos de marketing, redes sociais, bancos de imagem não editoriais e outras fontes externas ao exercício jornalístico. Quando esta prática assume caráter regular e estruturado, traduz-se numa substituição efetiva de trabalho jornalístico por conteúdos externos ao processo editorial, sujeito a regulação ética e deontológica.

Ainda que, em muitos casos, a origem destes conteúdos se encontre devidamente identificada, a sua utilização sem mediação, seleção ou tratamento editorial autónomo, ou com intervenção insuficiente, implica uma transferência relevante do controlo da narrativa visual para entidades externas ao jornalismo. Esta realidade não pode deixar de suscitar reservas quanto ao cumprimento dos princípios de rigor, independência e responsabilidade editorial, manifestando o SJ repúdio por este comportamento indigno dos deveres de serviço público dos média. Estas práticas não são compatíveis com a exigência de qualidade e independência que deve caracterizar o exercício do jornalismo.

O recurso reiterado a estes conteúdos para desempenhar funções próprias de jornalistas contribui para a desvalorização profissional e para a substituição de emprego qualificado por soluções de natureza economicista, colocando em causa o direito dos cidadãos a uma informação livre, independente e plural. A Direção apela a todos os associados para que comuniquem eventuais situações concretas, reforçando a capacidade de intervenção coletiva na defesa da profissão.

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