Jornalismo em extinção?

No Instituto de Estudos Jornalísticos de Coimbra realizou-se, em 29 de Abril de 2001, um seminário em que Avelino Rodrigues, membro da Direcção do Sindicato dos Jornalistas, interveio com uma comunicação, no âmbito do painel subordinado ao tema «Jornalismo é uma profissão em vias de extinção?»

Informação e comunicação já não são a mesma coisa. Os jornalistas não gostam que o jornalismo seja confundido com a produção de conteúdos. A priori definem-se como responsáveis da informação e contrapõem – se aos outros profissionais da comunicação social. A sua diferença específica reside na capacidade e na responsabilidade editoriais de uma informação desinteressada, ao serviço do público e do seu direito a ser informado. E no entanto, os jornalistas sabem que a informação é um conteúdo cognitivo do processo da comunicação, sustentam que as notícias se fazem para serem comunicadas e reconhecem obviamente que sem comunicação não há informação. Mas não querem ouvir falar de produção de conteúdos como função jornalística. Teoricamente compreendem que a informação seja comunicação, mas não querem entrar por esse campo, que acham perigoso, com o receio de amanhã terem de admitir que toda a comunicação seja informação.

A razão deste mal-estar é clara, mas pouco confessada. Os jornalistas sentem que perdem progressivamente o domínio dos média e que outros comunicadores já disputam o espaço mediático. Definem-se como portadores de uma cultura de liberdade de expressão, ligada à procura da verdade desinteressada, que teimam em exprimir como busca da objectividade – valor mítico que interiorizaram como ideologia de acção. Reagem como “cães de guarda “ da liberdade de imprensa, que foi uma conquista da revolução democrática contra o Estado opressor e que se arrisca a ser usurpada pelos detentores do poder económico, ao serviço de objectivos também opressores. O próprio entusiasmo dos proprietários dos média, quando falam indistintamente da produção de conteúdos (englobando na expressão o próprio jornalismo) já seria bom motivo para desconfiar. Acontece que de facto, a produçâo de conteúdos de comunicação – com objectivos distintos da informação desinteressada e a cargo de profissionais que não interiorizaram os códigos deontológicos do jornalismo – está a baralhar os públicos, a dilacerar o espaço mediático e a contaminar, por força da mitologia do mercado, o exercício da actividade de informar.

Não vamos aqui defender que o jornalismo seja uma “profissão” no sentido sociológico do termo, muito menos uma profissão estabilizada e fechada, se é que alguma o pode ser. Tomamos a palavra “profissão” no sentido impreciso de “actividade”ou agrupamento de profissionais que se revêem genericamente em regras e objectivos comuns. Também não vamos falar angelicamente de desinteresse profissional, de distanciamento jornalístico, sequer de objectividade , em estado puro. São apenas referências ou metas, certamente inatingíveis mas deontologicamente desejadas.

Sendo este mundo o nosso mundo, importa tomar consciência do nosso desafio essencial. Já não bastava que as instâncias profissionais tivessem dificuldade em assimilar as novas gerações de jornalistas que foram formados pela Universidade, sem a “patine” cultural das redacções. Mais grave que isso, nos últimos tempos, enquanto andávamos distraídos a discutir estilos e deontologias, o universo mediático, que era quase um feudo dos jornalistas, foi sendo disputado por outros profissionais, criados pelas mutações sociais e tecnológicas, em cadência acelerada. Alguns dos novos ofícios da comunicação foram assimilados facilmente pela comunidade jornalística : profissionais da imprensa desportiva, fotógrafos de imprensa, operadores de imagem de televisão, locutores e apresentadores de programas informativos de rádio e televisão .

Mas a profissão resiste a liberalizar o estatuto socio-profissional para outros agentes do universo da comunicação que lhe batem à porta : assessores de comunicação empresarial, consultores de serviços governamentais, peritos de agências de informação, divulgadores culturais, responsáveis de marketing e de relações públicas, publicitários, entretainers de talk-shows ( mesmo que integrem materiais informativos ou decalquem modelos jornalísticos ) e ainda os agentes culturais do mundo do espectáculo e da ficção. Esta segunda lista de agentes mediáticos desempenham funções da esfera dita “performativa” ou inscrevem-se dentro dos ofícios de persuasão social. Estão empenhados em tarefas que não se orientam para o objectivo da verdade desintessada ( por mais ilusória que ela seja ) aceitando deliberadamente a promoção ou a propaganda de interesses particulares.

Os jornalistas, que idealmente se definem ao serviço de interesses colectivos da comunidade, não põem em questão estes ofícios mas não os querem na mesma família. Mais: defendem-se deles, considerando-os aliados do mercado e, em certos casos, corruptores das audiências. Ao passo que os jornalistas continuam a arrogar-se o estatuto de cães de guarda ou “gatekeepers” da ordem social.

E no entanto, há lugar para nos interrogarmos sobre se a chamada “classe jornalística “ (que afinal não é classe nenhuma) terá suficiente credibilidade para poder afirmar-se como “consciência moral” da sociedade, barricando-se atrás da sua muralha deontológica…

Investigadores da sociologia da informação e outras autoridades culturais acusam as debilidades da formação jornalística, denunciando sem complacência as suas “crenças empiristas ingénuas, o que deveria impedi-los de se apresentarem como analistas da vida social”. Por outro lado, os políticos contra-atacam, apontando os vícios da “mediocraciaa “ ( mas é fácil tomar o todo pela parte ) e ridicularizando a mania do antipoder ou os abusos do “quarto poder”, arvorados em instância justiceira e discricionária, acima do próprio Estado democrático. A própria opinião pública começa a saturar-se dos exageros dos média, dos desvios éticos, da presunção de repórteres e entrevistadores atrevidos, da falta de sensibilidade e de cultura.

A conjugação de todos estes factores já está a afectar seriamente a credibilidade dos média em Portugal, enfraquecendo a posição dos jornalistas na defesa da sua posição social. A comunidade jornalística encontra-se em condições difíceis para enfrentar a disputa do espaço mediático, cada vez mais afunilado pela progressiva concentração económica, num processo de globalização desregulada. E a vantagem -segundo o vaticínio de alguns entendidos – estaria do lado dos novos comunicadores, que estão na moda, não conhecem barreiras éticas, servem melhor os patrões e beneficiam das leis do mercado, implacáveis e todo-poderosas.

De facto, num espaço público aberto e liberalizado, digladiam-se projectos concorrentes que não conhecem limites senão os do mercado. O “acontecimento” tornou-se um objecto estratégico de comercio – e os circuitos da comunicação transformaram-se em terreno de luta entre os gigantes do universo global. Para onde é que vamos?

A desregulação sem limites da economia neo-liberal vai estimular a criatividade e a diversidade culturais ou vai dilacerar o espaço público ? Continuemos a inquietante demanda : uma vez perdidos os contornos culturais (digamos, simplesmente, os valores que enquadravam o exercício da liberdade de informação) o que vai restar do universo mediático? Será que as novas áreas de comunicação de massas virão diversificar a actividade jornalística? A ser assim, poderá admitir-se que num futuro próximo o jornalismo venha a explodir numa constelação de novos ramos jornalísticos, com nova epistemologia da comunicação? Mas que vai restar ainda merecerá o nome de jornalismo? Ou, pelo contrário, o jornalismo vai implodir, não resistindo ao choque epistemológico e deixando-se absorver pelo mercantilismo de interesses e pelos ofícios de persuasão?

Nós estamos convencidos de que o jornalismo pode escapar ao colapso. O seu destino está ligado intrinsecamente ao destino da democracia. É uma esperança , não é uma garantia. Mas é preciso juntar esforços para travar as causas da crise. Só a aliança da Universidade com a comunidade jornalística poderá criar as condições de reflexão que salvem a imprensa livre. E a verdade é que têm andado de costas voltadas, embora já não tanto como em anos atrás. Faltam ainda os canais de colaboração institucional e as recriminações estereotipadas ainda não se esvaneceram.

Já agora aí vai mais uma : queremos um ensino superior de jornalismo, em que a aproximação da realidade seja prosseguida cientificamente, sem os sofismas duma nova escolástica , laica esta, céptica, relativista e enredada num idealismo serôdio. Nós, os jornalistas práticos que não conhecemos os meandros académicos, estranhamos que a Universidade apregoe os métodos de investigação científca para o estudo dos fenómenos e factos sociais, mas, depois, quando chega ao Jornalismo, a mesma Universidade duvide da existencia dos factos e os confunda com fantasmas, a que chama “Jornalismo virtual”. Aliás, pouco cientificamente, se vossas excelências me consentem.

Nós queremos um aprofundamento universitário das ciências da informação, em parceria com as instâncias profissionais e o seu saber adquirido. Nós julgamos possível uma aculturação das novas gerações de jornalistas, saídas da Universidade, revitalizando e restituindo os valores de referência da profissão. Nós trabalhamos por um jornalismo de cidadania , pela vocação política da informação.

Se formos capazes de seguir esta trajectória, o jornalismo não será uma espécie em vias de extinção. Mas o jornalismo do futuro vai ser um jornalismo outro: mais esclarecido, mais culto, mais científico, mais politico, mais especializado, mais contextualizador, como o novo “jornalismo cívico” que está a nascer na América. O jornalista do futuro será um artista da informação comunicativa, misto de escritor e de analista, às vezes mais performativo, às vezes mais opinion maker. Mas este jornalismo será mais selectivo, abarcando camadas de público minoritárias com cultura de participação comunitária – e provavelmente deixará de ser jornalismo de massas. A comunicação de massas, essa, tudo leva a crer, será controlada pelos novos comunicadores (que já estão chegando ao mercado dos média) restando alguns nichos de jornalismo “on line” e alguns espaços audiovisuais de informação rápida e curta, cada vez mais instantânea e ao vivo, de algumas poucas estações generalistas de rádio e televisão. É uma hipótese, que precisa de ser trabalhada. Mas eu penso que não haverá mais saídas, se a marcha do mundo continuar como vai.