Editor francês despedido por publicar caricaturas de Maomé

Jacques Lefranc, editor do “France Soir”, foi despedido depois de ter publicado a 1 de Fevereiro, em sinal de solidariedade com o jornal dinamarquês “Jyllands-Posten”, as caricaturas de Maomé que despertaram diversos protestos de comunidades muçulmanas, cuja religião proíbe que se retrate artisticamente o profeta.

A Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) manifestou o seu repúdio pelo despedimento, considerando que semelhante atitude representa um “sinal perigoso” face a “pressões inaceitáveis sobre o jornalismo independente”, neste caso desencadeadas por governos do mundo árabe que exigiram acções políticas contra os média, ingerindo-se indevidamente no trabalho dos jornalistas.

A organização apelou também ao diálogo “corajoso e franco” entre os jornalistas e profissionais dos média acerca do papel da comunicação social na promoção de um melhor entendimento entre culturas, “mas sem comprometer princípios fundamentais” como a liberdade de expressão.

Para facilitar esse diálogo entre culturas, a FIJ pretende relançar este ano o International Media Working Group Against Racism and Xenophobia (IMRAX), esperando que este contribua para a compreensão mútua.

Embora reconhecendo que a liberdade de expressão também tem limites, o secretário-geral da FIJ, Aidan White considera contudo que tais limites constituem “um assunto ético que deve ser discutido, debatido e resolvido por jornalistas. Os governos devem manter-se afastados das redacções e parar de interferir”, afirmou.

Reacções negativas, desculpas públicas e solidariedade

Posição similar demonstraram a Cartoonists Rights International (CRI) e a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), que se mostraram preocupadas com declarações do parlamento da Jordânia, datadas de 24 de Janeiro, a pedir a punição dos autores dos cartoons, publicados em Setembro de 2005 no jornal dinamarquês “Jyllands-Posten”.

Além desta acção concreta, as reacções da comunidade muçulmana fizeram-se sentir também através de ameaças de bomba ao jornal, ameaças de morte aos jornalistas e cartoonistas, tentativas de hackers para deitar abaixo o sítio do “Jyllands-Posten” (http://www.jp.dk), boicotes a produtos dinamarqueses, pressões diplomáticas de 11 países do Mundo Árabe, e protestos e queima de bandeiras frente às embaixadas da Dinamarca no Médio Oriente.

Este crescendo da reacção negativa à iniciativa do jornal acabou por levar o editor do “Jyllands-Posten”, Carsten Juste, a pedir formalmente desculpas, na edição de 30 de Janeiro do jornal, pela ofensa involuntária feita a muitos muçulmanos.

Reconhecendo a vitória dos muçulmanos neste braço-de-ferro, Carsten Juste disse-se no entanto envergonhado com esta derrota para a liberdade de expressão, dado que, depois deste caso, é bastante provável que ninguém se atreva na Dinamarca a desenhar o profeta Maomé durante muitos anos.

Em sinal de solidariedade com o jornal dinamarquês e em defesa da liberdade de expressão nas sociedades ocidentais, várias publicações europeias – como os diários alemães “Die Welt” e “Berliner Zeitung”, a norueguesa “Magazinet”, os jornais espanhóis “ABC” e “El Periodico”, os títulos suíços “Blick” e “La Tribune de Genève”, os italianos “La Stampa” e “Corriere della Sera”, e ainda publicações holandesas, checas e húngaras, além do já referido caso do “France Soir” – publicaram os polémicos cartoons do “Jyllands-Posten”.