Defender jornalistas, defender o jornalismo

Os novos órgãos sociais do Sindicato dos Jornalistas para o triénio 2021/23, eleitos a 19 de maio de 2021, tomaram posse na passada sexta-feira, 28 de maio, na sede do SJ em Lisboa.

 

Discurso de tomada de posse do presidente da direção, Luís Filipe Simões:

“Parece que foi ontem, mas passaram mais de 6 anos desde o dia em que a Ana Luísa Rodrigues me desafiou para dar um pouco do meu tempo e concorrer ao lado da Sofia Branco às eleições do Sindicato dos Jornalistas, em 2014. Queríamos trazer a mudança, organizar um congresso, que o jornalismo não se sentava a discutir a profissão há 20 anos. Avançámos.

Ganhámos as eleições e daí para cá foi feito tanto… Sofia, essa energia, essa entrega, essa capacidade de liderança são uma herança pesada, mas deixa-me pelo menos a força do exemplo. Há muito de ti no projeto da literacia, na realização do quarto congresso também. E na Conferência do Financiamento dos Media, nas lutas dentro das redações para não serem cometidos atropelos aos direitos dos trabalhadores.

Mas permitam-me que vos diga, todos sabemos que fizemos muito, mas nos próximos anos temos de fazer ainda mais. Os desafios são enormes e agora que partimos para esta luta, sinto o conforto de ter uma equipa fantástica a meu lado, com a mesma garra que encontrei há seis anos. E com a mesma vontade que nos fez avançar, que nunca nos fez parar.

Gente jovem, com paixão, com ideias, com um brilho especial no olhar. E este é o momento de lhes dizer que o jornalismo deve também dar o exemplo e por isso destaco que nesta equipa de vos falo estarão 52% de mulheres como dirigentes sindicais. Não, não fizemos esforço para chegar à paridade porque cada homem e cada mulher que aqui estão sabem bem que a competência não tem género. Em cinco órgãos temos três mulheres na presidência e isso diz também alguma coisa sobre nós e as nossas ideias.

Mas como dizia, mais importante do que foi feito é o que temos de fazer. Temos um debate pela frente para a mudança de estatutos para termos um SJ mais eficaz, mais dinâmico. Mais capaz de defender jornalismo e jornalistas.

Teremos um Contrato Coletivo de Trabalho para aplicar. Isso obriga-nos a estar nas redações, a ser vigilantes, a conversar com os trabalhadores, que aquele documento não pode ser letra morta, tem mesmo de ser aplicado.

Vivemos num momento de profunda crise, teremos muitas batalhas a travar, muitas lutas para ganhar. Certamente com o diálogo que temos mantido com as outras organizações do setor. Com a capacidade de procurar influenciar o poder político. Com a procura de alertar o Governo para uma ideia que se repete, mas que poucas vezes é praticada: ‘o jornalismo deve ser um dos pilares mais sólidos da democracia e deve por isso ser defendido e nesta fase é fundamental que seja apoiado’.

Houve há muito tempo alguém que disse: «Se pudesse decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo eu não vacilaria a preferir a segunda hipótese».

Não, quem o disse não foi um jornalista, foi um político, um político já a caminho da sua imortalização, o Thomas Jefferson. Claro que o que nós queremos é ter um governo com jornais, sobretudo um governo com bons jornais (e boa televisão, boa rádio e tudo o resto em bom também) e, neste sentido, também prometemos que a nossa luta, seja essa luta: o mostrar aos políticos (sobretudo aos que nos governam) a importância que o jornalismo tem (e deve ter) na poética ideia do Thomas Jefferson.

Bem sei que não serão dias fáceis os que temos pela frente, mas juntos saberemos dar o melhor de nós na defesa do jornalismo e dos jornalistas. De que forma? Que caminhos seguiremos? Há desde já um compromisso que vos quero deixar: até ao final do mandato criaremos condições para a realização do V Congresso dos Jornalistas porque juntos saberemos qual a melhor forma de nos reinventarmos e de melhor defendermos a nossa profissão.

E não posso deixar de enviar algumas palavras para os meus adversários nestas eleições. Tivemos duas listas e com isso a demonstração de vitalidade num setor que vive dias difíceis. Discutimos o jornalismo, vincámos as nossas diferenças, mas mostrámos que há algo que não nos separa: estarmos disponíveis e empenhados na defesa do jornalismo e dos jornalistas. Saúdo, por isso, o Luís Peixoto e a sua equipa por ter dito presente.

A partir de hoje espero que estejamos juntos, que as listas acabem aqui, porque temos todos uma missão que vale bem mais do que as nossas diferenças: defender trabalhadores, defender o jornalismo.

Tive uma vida por vezes difícil, mas foi o jornalismo que me deu tudo. Espero agora retribuir e dar alguma coisa de mim ao jornalismo e aos jornalistas. Energia e empenho não me faltarão. Espero ter também alguma sabedoria nesta missão.

Obrigado camaradas e vamos à luta!

Luís Filipe Simões
28.5.2021”

 

Discurso da presidente da direção cessante, Sofia Branco:

“Vou aproveitar a qualidade de presidente cessante para ignorar os formalismos e cumprimentar-vos a todos com um sentido ‘camaradas’, palavra que de tão bonita não tem sexo.

Seis anos, quatro meses e catorze dias depois, o resumo é fácil de fazer: foi uma honra servir o Sindicato dos Jornalistas e o Jornalismo.

Seis anos, quatro meses e catorze dias… é pouco tempo, é algum tempo, é muito tempo…? É, seguramente, tempo. É mais do que a idade do meu filho, que nasceu já eu era presidente da Direção.
O meu agradecimento primeiro é, por isso, para o pai dele, que me acompanhou nesta jornada desde a primeira hora, tão consciente da sua importância como eu.

Aliar estas duas missões, ser mãe e ser presidente da Direção do SJ, pareceu-me, a dada altura, uma loucura e é provável que uma e outra tenham saído, por vezes, a perder. Mas uma e outra fizeram de mim o que sou hoje e dei de mim tudo o que podia a cada uma delas.

Seis anos, quatro meses e catorze dias depois, uma coisa posso afirmar: longe de perfeita, a minha entrega ao Sindicato e ao projeto que tínhamos para ele em 2014 foi total.

Seis anos, quatro meses e catorze dias depois… É tempo, para mim, convicta da importância da renovação, de fechar um ciclo. Não me afastarei, vocês sabem que isso não faz o meu género. Estarei por perto, disponível e colaborante, como sempre estive antes de aqui chegar. Este é, e será sempre, o meu Sindicato.

Seis anos, quatro meses e catorze dias… foi uma jornada incrível. Aprendi muito, para o bem e para o mal. Mas cresci sempre, como jornalista, como trabalhadora, como pessoa, como mulher.

Termino esta caminhada infinitamente mais rica – e isso devo-o às muitas pessoas com quem me cruzei nestes seis anos, quatro meses e catorze dias. Não ouso listá-las uma a uma, confiante de que sabem quem são.

Agradeço a todas e todos que se disponibilizaram para fazer parte das duas Direções a que presidi, de forma breve ou prolongada, mais ou menos participada – nunca duvidei da entrega de ninguém e isso é o que basta.
Permitam-me agradecer em particular à Isabel Nery e à Paula Sofia Luz, por terem ficado do princípio ao fim desta jornada comum.

Agradeço também a colaboração e o empenho dos outros órgãos sociais do Sindicato e de quem deles fez parte, nas pessoas dos presidentes da Assembleia Geral, Eugénio Alves e Cesário Borga, do Conselho Fiscal, Manuel Esteves, do Conselho Deontológico, São José Almeida, e do Conselho Geral, Ana Luísa Rodrigues e Eugénio Alves.

Agradeço ainda às Direções Regionais da Madeira e dos Açores, fazendo votos para que a relação de proximidade continue com as lideranças que se seguem, do António Macedo Ferreira e da Marta Silva.

O SJ tem dois pilares essenciais à sua ação: os advogados, que defendem os jornalistas e o jornalismo com profissionalismo, mas também por convicção democrática; e as funcionárias que lhe conhecem as costuras de cor. Isilda, Maria José, Anabela… obrigada, muito, por tudo. À Maria João já só posso dizer que tentarei tratá-la por tu, sabendo que ela sabe o que isso quer dizer.

Em seis anos, quatro meses e catorze dias, o Sindicato dos Jornalistas nunca esteve sozinho na defesa do jornalismo – esteve com os seus associados, que fazem dele o que é. O Sindicato somos nós.
Esteve também bem acompanhado, pela Casa da Imprensa, pelo Clube de Jornalistas e pelo Cenjor, parceiros fundamentais para o SJ e que assim devem continuar a ser.
Esteve também bem acompanhado por outros parceiros, a Associação Portuguesa de Imprensa, que aqui está, o CNID, que aqui está, a CCPJ, que aqui está, e por muitos outros, nomeadamente no Parlamento e também no Governo, que nos acompanharam nesta jornada.

Ao contrário do discurso de há três anos, já não sei se o tempo passou depressa ou devagar, mas sei que fizemos muito. Escolho os dois feitos de que mais me orgulho:
– o prometido 4.º Congresso dos Jornalistas – e aqui permitam-me que deixe um agradecimento coletivo a quem o organizou, na pessoa da Maria Flor Pedroso.
– e o projeto Literacia para os Media e Jornalismo, que congrega já perto de 150 jornalistas, investigadores e professores de comunicação – e aqui permitam-me que, em nome do coletivo, assinale a entrega da Isabel Nery, do Vítor Tomé e do Miguel Crespo.
Seis anos, quatro meses e catorze dias…
Defendemos os nossos onde foi preciso, independentemente do vínculo com que exercem a profissão e da geografia a partir de onde o fazem.
Defendemos o jornalismo como pilar fundamental da democracia, preservando a ética e a credibilidade, fundamentais ao seu exercício livre e independente.
Seis anos, quatro meses e catorze dias… chegou a hora do futuro, que, para os ateus, como eu, pertence aos homens e às mulheres e ao que dele estes e estas quiserem fazer.

A quem se segue, desejo o melhor, na pessoa do Luís Simões, com quem tive o gosto de trabalhar durante grande parte desta jornada. Não vais precisar, não vão precisar, mas sabem que podem contar comigo, para o que der e vier.

Saúdo todos os agora eleitos para os corpos gerentes do Sindicato, fazendo votos para que cumpram os seus mandatos num ambiente de diálogo e colaboração. A partir de hoje, não há listas – o Sindicato somos todos.
No último dia da mãe, o meu filho de cinco anos descreveu-me, para além de dorminhoca e rabugenta, como trabalhadora. É isso que sou e serei, sempre com o meu, o nosso, Sindicato.
Foi uma honra!

Lisboa, 28 de maio de 2021,
Sofia Branco”