O modelo de avaliação de trabalhadores que o jornal “Público” pretende implementar ainda este mês contém propostas perigosas, que incentivam ao “clickbait”, e vão em sentido contrário ao que seriam boas práticas para gerir a progressão na carreira dos profissionais, conforme estatuída no Contrato Coletivo de Trabalho para a Imprensa (CCT) que a empresa diz aplicar. A Direção do Sindicato dos Jornalistas exorta a administração a rever esta proposta, e incentiva jornalistas a contestar o modelo de avaliação em cima da mesa, disponibilizando-se para dar o apoio necessário aos associados, inclusive através dos seus serviços jurídicos.
Ao propor um modelo de avaliação híbrido, em que 15% da nota dada a jornalistas está dependente de métricas como cliques para assinar o jornal ou “pageviews”, o “Público” desvirtua um modelo de avaliação que deve basear-se apenas na qualidade do trabalho desenvolvido pelo jornalista, e não no alcance que têm os seus artigos. Não só é injusto para os trabalhadores, porque o cumprimento de metas pode ser condicionado por questões técnicas alheias aos jornalistas, e não depende da qualidade da informação produzida, como é potencialmente perigoso, mesmo numa redação com provas dadas no respeito ético e deontológico, deitando gasolina na fogueira da tentação pelos cliques fáceis.
Pode concluir-se que este modelo de avaliação estatui que se progride na carreira mais facilmente se se aumentar o número de leitores a qualquer custo. A qualidade do jornalismo não pode ser avaliada por estas métricas quantitativas, sob pena de subvertemos os princípios básicos do jornalismo.
Outro aspeto preocupante, e que colide frontalmente com o espírito da avaliação que preside ao CCT, é a imposição de quotas para as notas atribuídas. O modelo de avaliação do CCT está desenhado para servir de base (e apoio) à progressão na carreira, garantindo que o mérito é aquilatado de forma justa e devidamente reconhecido em termos de evolução da remuneração, por isso, sem muros ou comportas de retenção administrativas. A imposição de quotas limita o crescimento profissional dos trabalhadores e coloca jornalistas em competição com camaradas de redação.
A sensação de estagnação, que perpassa praticamente toda a Comunicação Social, genericamente sem progressões salariais relevantes há duas décadas, contribui para o desalento e cansaço que os estudos demonstram existir na profissão. As garantias do CCT visam dignificar a profissão e os rendimentos e não devem ser desvirtuadas ou aproveitadas para implementar sistemas injustos para os trabalhadores e desajustados da realidade e do espírito daquele documento longamente negociado entre representantes dos trabalhadores e das empresas.
