QUINTA-FEIRA
19 de Julho de 2018 | 01:27

Como a crise levou jornalistas para a política em Portugal

Publicado a 11/05/2018 NOTÍCIAS

Dois casos protegidos pelo anonimato falaram sobre as suas experiências na mudança de campo em reportagem internacional. "Os media não conseguem pensar", sintetizam.


Podem continuar a preferir o jornalismo, mas a crise e os baixos salários levaram vários profissionais de comunicação social à opção pelo trabalho na política e, em vários casos, no próprio Governo de António Costa. Uma reportagem de João de Almeida Dias para o Mapping Media Fredom do X Index The Voice of free Expression dá conta de dois casos que, protegidos pelo anonimato, relatam como foi a mudança.

"Quando era jornalista via muita gente a movimentar-se para este lado", contou Sara. "Algumas eram pessoas que nunca pensei ver a fazer isso, mas não só fizeram como, surpreendendo muita gente, tudo correu bem", acrescentou a ex-profissional durante oito anos que está a trabalhar para o Executivo de Costa. "É um pouco como o suicídio, exerce um efeito contagioso, mas, neste caso, teve um final feliz".

Sara contou como tentava especializar-se numa área de jornalismo, enquanto as suas chefias consideravam que isso era uma infantilidade. E que, mesmo num dia em que conseguiu uma entrevista com o ministro da área que costumava acompanhar, teve de cumprir "trabalho de secretária" e "picar telexes" antes de sair para fazer a entrevista. Ao mesmo tempo, o salário mensal não passava dos 900 euros - depois de obter trabalho num instituto público, Sara passou a desempenhar funções junto do Executivo, onde ganha 2,5 vezes mais do que como jornalista.

Outro caso mencionado na reportagem é o de Inês, também a trabalhar para o Governo de Costa. "Após 12 anos num periódico, sofreu com os salários em atraso durante três meses e acabou por aceitar trabalho noutra publicação. Mas o ritmo era muito mais baixo e a motivação diminuiu. Até ser convidada para trabalhar no ministério que costumava seguir, recebendo o dobro por comparação com o primeiro trabalho e mais 600 euros face ao segundo", conta a reportagem. "Trabalho com os mesmos temas acerca dos quais escrevia, portanto, a experiência não se perdeu. A diferença é que, agora, estou do outro lado", explica Inês.

Essa mudança permite-lhe tirar partido do conhecimento que tem da profissão exercida e de alguns profissionais. "Sei que posso dizer algumas coisas que os mais experientes não vão aceitar, mas outros aceitam de imediato, porque não podem dar-se ao luxo de pensar", confessa.

A reportagem ouviu também Carla Baptista, especialista em media e docente na Universidade Nova de Lisboa, que analisou os malefícios exercidos sobre profissionais "qualificados, mal pagos e esmagados pela corrente crise nos media de Portugal". Para Carla Baptista, este cenário tem "sérias consequências sobre o jornalismo e, se a situação for olhada como um combate entre dois lados, é óbvio quais são os interesses que vão prevalecer".



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